O estigma da vida
Senhor do tempo poderia eu me auto-intitular, mas talvez fosse um pouco precipitado dizer assim, com tanta convicção que o tempo está em minhas mãos...
Chamo-me Josef William, meu único intuito sempre fora por meio de meus estudos, achar alguma forma de vencer esse estigma tão defasado, o qual todos nós conhecemos por morte.
Seria ela a única certeza da vida? Prefiro acreditar que seja uma certeza provisória, posto que nós homens tudo sejamos capazes de mudar, ou quase tudo...
Desde bem jovem, iniciei meus estudos, para desenvolver formulas que retardassem ou cessassem por completo os efeitos do tempo perante a figura física humana. Poderiam muitos de vocês me chamarem de louco, logo afirmo, que louco não sou, nem nunca fui. Apenas um homem que acredita nos poderes intelectuais e naturais ao alcance dos homens, já como graça divina, a qual com certeza teria orgulho, o grande ser supremo se soubesse dos avanços que o homem tem feito ao decorrer dos séculos. E quem sabe um dia até, igualar-se mesmo que superficialmente a ele, criando e descriando vidas, e controlando coisas que até então seriam apenas mistérios irrefutáveis de nossa origem.
No decorrer de minhas experiências exageradas foram às vezes que me vi quebrando coisas por pura frustração de perceber que anos de pesquisa em busca de formulas coerentes que tivessem o poder de “parar” o tempo, ao menos esteticamente para um ser humano não estavam surtindo efeito algum, os anos se passavam, e minha vida, toda dedicada a tais estudos perdia seu vigor, e sua juventude, preciosa...
Tendia então por aproximar-se cada vez mais, do tão previsível fim... Ou desencarnação, para o caso de se crer num plano de vida superior...
Eis que minhas ultimas energias, se concentraram então, numa formula, que desenvolvi, juntando componentes de todas as outras formulas por mim já feitas.
Essa formula seria então testada em um camundongo como qualquer outro, que já estava com 2 anos, idade então agonizante para tal forma de vida, que com muita sorte, consegue durar 3 anos...
Minha expectativa ficava maior a cada dia que se passava. Via-me obcecado e concentrado analisando a vida daquele camundongo o tempo todo, sem me privar a qualquer pequeno detalhe, passando horas a observar-lhe incansavelmente com um ar de expectativa imenso, que me remetia preso a aquela situação toda, como sendo foco total e absoluto de minha atenção e meus pensamentos.
Os dias foram passando, os meses vindo em seqüência, e logo então, os anos.
Ao completar de seus 6 anos, eu já tinha absoluta certeza que surtira então algum efeito incrível a aquele roedor minha elaborada formula. Então resolvi tomar uma dose dela, muito maior, é claro, levando em conta nossa desigualdade de numero celular...
Logo depois de ingerir a formula, senti-me meio atordoado, me deitei, e dormi por algumas horas...
Ao acordar, fui diretamente para o espelho, lavar meu rosto, quando me deparo com um rosto diferente, sim! Diferente! Um rosto que eu já não via há anos! Um rosto que eu nunca imaginara rever, posto que estivera “desperdiçando” todo seu vigor, enterrado a minhas pesquisas. Mas seria tal figura real? Seria possível!? Tantos anos de estudos seriam então recompensados de forma tão incrível...
Surpreendente, mas com o passar das horas, me dava conta, estava eu, fisicamente aparentando por volta de 23 anos... Embora minha idade fisiológica fosse 67.
Era realmente difícil acreditar na imagem que se projetava diante de meus olhos no espelho, e a sensação de energia que eu sentia crescer dentro de mim.
Mesmo tendo tanto tempo de pesquisas, e formulas e mais formulas, bem no fundo, até eu achava ser uma coisa praticamente inconcebível para se crer, que um dia, o segredo da juventude, e quem sabe, da vida eterna seria decifrado assim dessa maneira...
Via-me então com o poder em minhas mãos, a cada dia que se passava, e minha aparência se reforçava jovem, e cheia de vida, meu vigor continuava intacto.
Pensei então em comercializar minha formula, e com isso, ser um homem extremamente poderoso, mas na realidade, isso para mim nunca importou.
O que eu queria realmente era poder desfrutar de longos anos de vida, tantos... E em perfeitas condições, como nenhum ser deste mundo jamais sonhara em tê-los.
Sempre fora eu, um homem sozinho, afastei-me prematuramente de minha família, para morar numa pequena cidade, onde montei meu laboratório de pesquisas, e me isolei do resto do mundo, e das pessoas que nele habitavam. Acreditava-me, vender a formula sim, mas não agora, queria por longo tempo, viver com esse poder em segredo para o resto da humanidade.
Mudei-me para outro local, mais habitado, e planejava-me a partir, daquela mudança, mudar também, meu estilo de vida totalmente. Casando-me, tento filhos, e vivendo enfim, uma vida sadia, a qual sempre quisera ter, porém minha obsessão por controlar o tempo e a vida, não me permitia interromper meus estudos e experiências.
Foi então, que conheci a doce e jovem Kary, uma jovem de cabelos ruivos e longos, e olhos esverdeados, profundos e hipnóticos que me fizeram completamente feliz e recompensado por ter rejuvenescido tantos anos, pois se de outro modo fosse, não teria eu, um senhor já de certa idade, capaz de me aproximar de tão bela e jovem moça.
Kary demonstrara também timidamente interesse por mim, forasteiro jovem, alto e robusto... Dono de uma módica fortuna, deixada por meus pais, e dessa forma sobrevivera eu até então.
Não demorou, até que Kary e eu estivéssemos casados.
Evidente, que toda minha história contada a Kary, fora em 80% omitida, pois não poderia dizer a ela simplesmente, que eu tinha 68 anos, e havia desenvolvido uma formula fantástica capaz de restabelecer a juventude e a vitalidade humana, por tempo até então indeterminado.
Tínhamos um cão, de nome Spike, um belo São Bernardo de raça pura, que nos alegrava os dias, posto que tanto eu, quanto Kary adorávamos animais, embora eu houvesse descoberto esse detalhe de minha personalidade apenas depois de casar-me com ela.
Possuía eu, também um laboratório em nossa casa, afinal, uma vez, cientista estudioso, sempre o será. Não alimentava maiores ambições, sentia-me feliz, e realizado ao lado de Kary, e também daquele cão enorme o qual havia eu me apegado tanto...
Pensava eu, que quando os anos estivessem causando efeitos visíveis em Kary, poderia eu então, sem que ela desconfiasse dar-lhe minha formula, para que juntos, vivêssemos jovens para sempre, ou até que o efeito daquela maravilhosa fórmula durasse. Estava tão feliz com aquele verdadeiro retrato de uma vida feliz, que pretendia vida eterna até para aquele simples cão que possuíamos, acreditava eu, ser um quase deus, mas ao completar 7 anos, Spike teve de ser sacrificado, e a formula não pode ajudá-lo...
“Não surte efeitos sobre cães...” foi o que logo pensei, lamentei claro! Mas nada podia ser feito agora, não havia maneira de trazer um animal morto novamente à vida, meu desejo insano de brincar de Deus tinha barreiras, pois como disse:
“Louco, não sou nem nunca fui!”
Nunca soube lidar muito bem com a perda, talvez fosse esse um dos principais motivos por minha incansável luta em busca de uma “cura” para este mal tão certo.
As vezes pegava-me pensando... Se tudo aquilo não era nada mais que um sonho realista e longo, e eu não iria despertar numa manhã de domingo, velho e sozinho em minha casa, e rir desse sonho como um louco de veras... E continuar encarando minha verdadeira fase no espelho, e tendo a certeza que o fim se aproxima a cada hora mais e mais de meu arcaico corpo o qual tivera pouca vivencia apesar da muita idade...
De fato, pensamentos jogados, e para minha alegria, ou desgraça, o tempo ia se passando, e tudo continuava igual. Ao menos para mim, e mesmo que superficialmente, continuava igual sim.
Tivemos 3 filhos, Mike, Petter e Josef Jr.
Mike era o oposto de mim quando jovem, era um garoto normal! Brincava, caía, se machucava e novamente punha-se em pé, mesmo que fosse para cair novamente. Uma infância feliz, como eu, nunca tivera, perdido entre livros trancado em meu quarto cultivando minha melancolia e desperdiçando a melhor fase da vida.
Petter era um pouco mais semelhante a mim, mesmo que pouco, era um garoto esforçado, se preocupava muito com o colégio e as notas, desde cedo dizia a quem lhe perguntasse que seria um advogado, e faria justiça a quem dela necessitasse.
Josef Jr. Era o mais velho, e o que herdara meu nome. Josef não era parecido com nenhum dos dois irmãos, e talvez em um aspecto fosse o mais próximo de mim próprio... A solidão...
Josef não era um gênio, e tão pouco queria ser, apenas gostava de se isolar, ou fingia gostar, para lidar melhor, com sua dificuldade em se relacionar com as pessoas.
Lembrava-me muito de minha infância observa-lo, pois embora ele não estivesse envolto aos livros, como Petter, e eu, diferente de Petter, e igual a mim, ele transmitia uma melancolia muito grande, e uma frustração aparente por ter tal dificuldade.
Kary sempre fora uma exelente esposa, dona de casa, e também mãe. Cuidava da casa e dos filhos, de uma maneira admirável, e contudo não permitia a mim que sentisse falta de sua presença como esposa carinhosa e zelosa.
Os anos se passavam, e Kary tornava-se uma mulher madura, e meus filhos adolescentes, e logo homens. Enquanto eu permanecia jovem e robusto, então acreditava ser o momento exato para dar-lhe uma dose módica da tal formula. (curioso como minha infantilidade tardia era bastante grande, como seria possível fazer com que minha Kary do nada rejuvenescesse anos sem que aquilo fosse absolutamente estranho para ela, meus filhos, e o resto das pessoas que nos viam diariamente.)
Kary evitava comentários sobre minha aparência, mas eu sabia que ela percebera que o tempo apenas a ela havia passado.
As vezes a via fumando, sentada na sacada de nossa casa, com um olhar perdido, como quem procurava respostas para um tormento enfermo... Mal sabia ela, que tais respostas eram inaceitáveis.
Alguns comentários circulavam naquela cidade entre os moradores mais desocupados, que diziam que o segredo de minha juventude seria atribuído a um pacto feito com Lúcifer... Oh claro, nada dizia eu sobre tais rumores tão absurdos, afinal... Mais absurdo ainda seria a verdade, nua e crua!.
Misturada ao suco do jantar, dei a dose a Kary sem pensar duas vezes, acreditava eu, poderia resgatar-lhe anos de vida, e fazer duradoura sua existência, já que eu então com 87 anos, continuara saudável, e aparentando os mesmos 23 anos.
Surpresa foi que nenhum efeito a ela tal dose surtiu... Desesperei-me ao vê-la acordar da mesma forma que fora dormir, e dia após dia sem qualquer resultado.
Retomava então, minhas pesquisas tentando achar, o que de errado havia sido feito, mas nenhuma resposta satisfatória eu encontrava, Havia eu dado a mesma formula para Kary, da mesma maneira que havia consumido já há muitos anos atrás. Fora tomada, em doses maiores, e mais fortes, sem ainda qualquer efeito aparente.
O terror que me assombrava a cada dia sem sucesso, e tentativa fracassada me fazia prisioneiro de um mal terrível, e muito mais grave que qualquer dor física, ou perturbação por motivos banais, eu tinha um segredo absurdo, e uma história mais absurda ainda!
O que fazer!? Cada hora em que eu passava acordado, refletia sobre aquela situação e naquele momento sim, desejava que fosse nada mais que um longuíssimo pesadelo aquela realidade insana que se firmava cada dia mais.
Os anos se passavam, e meus filhos, se tornavam homens feitos, Mike já estava casado, Josef fora morar com uma bela moça, tão tímida quanto ele próprio, o que para mim era motivo de alegria incondicional, pois fizera Josef (que se assemelhava a mim na solidão e melancolia durante a infância e adolescência) o que eu não havia conseguido durante uma vida... E Petter se mudara da cidade, para estudar direito, o que para mim não foi uma surpresa, mas uma felicidade e um sentimento de realização imenso também.
Kary já não me olhava nos olhos, sentia vergonha, por estar envelhecendo sozinha, e já não queria mais, que eu a tocasse...
Por mais que me alongasse a mais 50 linhas, ainda não seria capaz de traduzir o que eu sentia por ser rejeitado por minha esposa que agora, perante a mim, mais parecia minha mãe, e logo pareceria minha avó.
Chegou a me perguntar em alto e bom som, se não seria verdade a lenda que a cidade criou a respeito de mim. Sobre ter feito um pacto com o demônio como na história de Fausto... Não, realmente não se tratava de uma lenda.
Mas como dizer? Seria taxado de louco, com certeza seria, e mesmo que não fosse eu não poderia lidar com isso, eu não sei qual seria a reação deles, mas por deus! Como me livrar de toda aquela situação infernal sem ter que enfrentar as conseqüências devastadoras do meu desejo sobre o poder da vida!?
Kary começou a se afastar cada vez mais de mim.
Meus filhos tiveram filhos, e Kary, faleceu de um Câncer já num estado bastante adiantado que possuía nos pulmões aos 63 anos.
A dor que eu senti por vê-la partir, jamais hei de esquecer...
Kary embora não mais se comportasse como minha esposa, era como um anjo, um porto seguro, e lembrar-me de sua existência já me fazia aquietar a mente, pois fora apenas ela, quem dera uma luz a minha vida, e fora com ela, meus anos de maior felicidade, e provavelmente por isso, a partir daquele acontecimento, seria meu maior motivo de dor... Constante e implacável, que corroia-me aos poucos, sem abalar meu físico, mas destruía de forma avassaladora todo meu subconsciente, e também consciente.
Se dormia tinha pesadelos, quando acordado, transpirava envolto a pensamentos que me atormentavam o tempo inteiro.
Via-me por fim, caindo entre minha agora, palpável degradação da alma e das idéias que nela estavam já não havia luz em meu caminho, e tão pouco momentos de sobriedade,
Meus filhos cada vez mais, se comportavam de maneira estranha quando os ia visitar, pois como seria possível, um pai aparentar menos idade que seu próprio filho? Realmente, não tinha o menor cabimento.
O único que mesmo de modo confuso, conseguia aceitar-me sem perguntas, ou até certo medo, era justamente Josef... O eu não estava enganado em pensar, que ele seria o filho mais próximo a mim, pois o tempo só veio a confirmar meus pensamentos.
E o tempo passava, desenfreado e audaz de forma que os filhos de meus filhos tiveram filhos, que tiveram filhos, Josef, Peter e Mike, morreram de velhos, e eu não suportando a dor, me refugiei novamente a aquela velha cidade pequena, e meu antigo laboratório...
Estava sozinho nesse mundo, mais uma vez, esquecendo o detalhe de que tinha netos, e bisnetos, mas eu não queria os ver morrer, já não havia estrutura para isso, não era possível para mim dar abrigo a mais dor... Meu espírito já se perdia podre entre lavas escuras de sofrimento
Refugiar-me a aquela antiga cidade, onde tudo começou foi a única opção que se vez plausível dentre minhas idéias mais insanas...
Talvez se perguntem, por que não o suicídio? Talvez um ótimo motivo para não comete-lo fosse que espécie alguma de remédio surtia efeito algum sobre mim, não haviam doenças, não havia cura, na havia calmante, não havia nada!.
Violar minha forma física ou atirar contra mim próprio não é opção, nunca o faria, e se fosse para morrer, que fosse algo digno, mesmo que não houvesse até então forma digna nem para que eu morresse em paz, e fosse ao encontro de Kary, se é que isso seria possível.
Fosse castigo, ou benção, a formula nunca mais funcionou, com mais nenhum animal, ou pessoa.
Hoje tenho 187 anos, e agora estudo uma forma, de colocar as coisas em seu lugar, poder reverter o efeito daquela maldita formula, que me fez ser o homem, que mais sofrimentos nessa vida teve, por ver partir, todos os que amava, e ainda ter a certeza, que muitos irá ver partir.
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